Sobre viajar barato, a preguiça e o método Montessori

Uma jornada rumo a viagens baratas e descomplicadas com criança

“Você foi selecionada!” – dizia a carta.

Era 2005 e eu, com meus 20 aninhos, me inscrevi num programa de intercâmbio mundial de estagiários. Sorte a minha, fui selecionada para uma vaga em Valência, na Espanha.

Confesso que tive medo, muito medo.

Me vi numa encruzilhada, desistir ou viajar sozinha?

Por muitas vezes, escolhi a primeira opção. Acreditava que era tímida demais para viajar sozinha e morria de medo só de pensar em falar outro idioma.

Mas, no final, deixar de viajar doía muito, muito mesmo.

Dessa vez eu decidi arriscar. Era tudo ou nada, ou viajava ou perdia a bolsa.

Seria a realização de um sonho! E pensar nisso como uma oportunidade única foi o suficiente para que eu tomasse uma boa dose de coragem para embarcar nessa aventura…. Sozinha (13 motivos imperdíveis para você viajar sozinho).

Viajar sozinha
[2015, sozinha, em Valencia]
Bom, pensei cá com os meus botões, os espanhóis também são latinos. Não vai ser tão difícil assim…

Em três meses de preparação, consegui evoluir um pouco o meu portunhol e rumei, pela primeira vez, para o outro lado do oceano.

Eu só não esperava que o que estava por vir seria tão assustador!

Atrasos e conexões

Para começar, o meu voo atrasou e perdi a conexão para Valência.

Em Paris, sem falar uma palavra de francês, tive que enfrentar 3 horas na fila, atendentes mal humoradas e pouco receptivas, uma ameaça de bomba e 11 horas total de espera antes de, finalmente, embarcar rumo à Valência. Quando eu aterrissei por lá, obviamente, o responsável pelo intercâmbio já não estava mais me esperando.

Resumindo, cheguei em uma cidade nova, com meu espanhol de 3 meses e 100 euros no bolso para passar 1 mês inteiro. Nada mal para começar minha primeira viagem sozinha, não é verdade?

Como já era tarde, fui “obrigada”a gastar o meu rico dinheirinho em um táxi que me levou rumo ao primeiro hostel da minha vida.

Naquele dia, eu não fazia a menor ideia do que era um hostel, mas o taxista me indicou como a melhor opção para gastar os poucos euros que eu carregava comigo (confira o nosso passo a passo para reservar um hostel e descubra um pouco mais sobre essa que é uma das melhores experiências de viagem, na minha opinião).

Você já deve estar se perguntando, e tem alguma parte boa nessa história?

Bom, o começo, depois de alguns dias (ou semanas, vai, rsrsrs) se tornou um grande aprendizado e motivo para muitas risadas.

Mas, a melhor parte dessa história eu conto agora…

26 dias e 900 euros

Para a minha felicidade, o recepcionista do hostel falava 5 línguas, umas das quais era o meu amado (e já saudoso) português. Foi ele que traduziu as minhas angústias para o meu empregador (após uma noite muito mal dormida e chorosa, o meu portunhol voltou à estaca zero, rsrsrs).

Depois de me buscar, o meu empregador me apresentou um pouco da cidade, me adiantou o salário do mês e me levou para conhecer o meu lugar de trabalho (que, por sinal, era um lindo castelo situado no pueblo Albalat dels Sorrels, próximo a Valência).

Castelo de Albalat dels Sorrels
[Castillo de Albalat dels Sorrels – Por Enrique Íñiguez Rodríguez (Qoan) (Trabajo propio) [CC BY-SA 3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], undefined]
Já na casa onde eu iria passar os dois meses seguintes, conheci pessoas maravilhosas, dispostas a me darem um ombro amigo quando eu precisei e a me acompanharem nas mais altas aventuras.

Depois de conhecer um pouco da Espanha e de finalizar o estágio, me joguei, novamente sozinha, em uma viagem de 26 dias inteiros pela Europa com apenas 900 euros no bolso.

Minha viagem não poderia deixar de traduzir a minha filosofia de vida: menos é mais. Nesse caso, infelizmente, foi menos dinheiro e mais perrengue, rsrsrs.

Percorri muitos países. Conheci muitas culturas e pessoas diferentes. E passei muito perrengue, obviamente, rsrsrs.

Andei a pé, de trem, ônibus, avião, metro, carro, bicicleta. Passei a noite em claro vigiando minha mochilinha.

Comi 3 hambúrgueres do MC Donalds em um único dia (não sobrava dinheiro para muita coisa) e passei muito mal durante alguns dias (depois dessa experiência, fiquei 3 anos sem conseguir sentir o cheiro de sanduíche).

Dormi em hostel, casa de paquistanês, casa de brasileiro e quartinho de recepcionista (longa história). Perdi voo e quase passei fome.

Enfim, vivi muitas experiências, algumas excelentes e outras nem tão boas assim… E me sentia a pessoa mais feliz do mundo!

Nessa hora eu me dei conta: havia sido picada pelo vírus viajante.

Voltei para o Brasil com a maior e mais leve bagagem da minha vida: aprendizados enriquecedores, um novo idioma, lindas amizades (algumas das quais mantenho até hoje), irmãos que eu escolhi, uma Espanha inteira e outros 14 países mais.

Cultivando amizades
[2015, em Granada, cultivando lindas amizades até hoje]
E uma certeza: é possível viajar bem com pouco.

Mas eu precisava superar um grande desafio para que minha filosofia refletisse somente coisas positivas.

Menos dinheiroOk, feito!

Mais descobertas, mais aprendizados, mais simplicidade e, consequentemente, mais descomplicação.

O blog

Muitos perrengues e viagens depois, acertando uns errinhos daqui, aprimorando uns acertos dali e…

O caminho das pedras
[Bam! – By studio_hades (Open Clip Art Library image’s page) [CC0], via Wikimedia Commons]
Encontrei o caminho das pedras!

Eu não queria que ninguém passasse pelo que eu passei. Ou deixasse de viajar por causa de grana.

Nada mais justo do que compartilhar os meus aprendizados com o mundo, não é verdade?

E foi assim que decidi criar o blog. Que só veio a tomar corpo depois que o Junior entrou de cabeça na minha vida.

Mas aí algo sobrenatural aconteceu para mudar o rumo dessa história…

Deu preguiça

Um teste de farmácia depois e… 

Oops
[Oops – Designed by Freepik]
… estou grávida.

Grávida? Grávida! Grávida?

Caramba! Eu realmente acreditava que não podia engravidar. Pelo menos não com essa facilidade…

“Tem um serumaninho crescendo dentro de mim” – pensei cá com os meus botões.

Bastou as pessoas desconfiarem para começar o bombardeio de imposições e julgamentos.

Pensem numa pessoa estressada.

Sério mesmo que eu precisava pensar na minha filha como um trabalho?

Eu realmente precisaria morrer para renascer outra pessoa, agora mãe? Eu não poderia continuar vivendo e transmitir essa linda vida, intensa e feliz, para esse serumaninho maravilhoso que estava crescendo dentro de mim?

Meu bebê, de verdade, precisaria de mais espaço em casa? E de mais coisas? Logo eu, que gosto da rua, das praças e das pessoas?

Como assim eu não poderia mais viajar como antes?

Escutar o que queriam me “ensinar” sobre filhos me dava preguiça, sério! Não que eu imaginasse que fosse ser fácil, longe disso.

Eu sempre tive certeza que cuidar de outro ser humano seria a tarefa mais desafiadora da minha vida, sem sombra a dúvidas. E eu amo desafios. Amo solucioná-los de forma simples, sem complicações e rebuscamentos.

Me incomodava que a minha vida e a minha barriga, a partir do momento em que engravidei, se tornaram domínio público.

Grávida

opções

Nesse momento, eu tinha duas opções:

  1. Aceitar o que todos diziam e me deixar levar pela maré; ou
  2. Me especializar na “ciência” de ter filhos para criar os meus próprios julgamentos e a minha própria maneira de cuidar da minha cria.

A primeira opção me levaria a abandonar a descomplicação e a leveza da minha vida para me adaptar a regras e padrões pré-estabelecidos. E complicações me dão preguiça

A segunda poderia não ter atalhos, mas quem quer atalhos quando o importante é o caminho?

Eu estava no comando da minha vida. À frente das decisões. Todos os pensamentos e ações que tomaria a partir desse momento definiriam e moldariam o meu futuro e o do meu bebê.

Por isso, escolhi a segunda opção. Eu queria que a minha pequena fizesse uma grande diferença nesse mundão.

Tinha pouco tempo para aprender muito, tudo o que eu pudesse absorver para tomar minhas próprias decisões.

Os momentos que eu havia reservado ao blog agora estavam voltados para a minha mais nova e incrível tarefa: ser mãe em tempo integral, mesmo que nossa bebê ainda estivesse no aconchego da barriga, rsrsrs.

Foi nesse período que descobri Maria Montessori, uma italianinha arretada que criou um método que poderia revolucionar os meus dias.

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O método Montessori

“Ajude-me a fazer sozinho!”

Esta frase resume a essência do método Montessori, ajudar a criança na medida certa. Deixá-la fazer sozinha o que é capaz. Segui-la e instigá-la a percorrer o seu próprio caminho, apoiando-a quando for preciso, respeitando o seu tempo e o seu ritmo.

A partir da observação profunda e da análise do comportamento infantil, Maria Montessori compreendeu que as crianças têm a capacidade de aprender espontaneamente por meio das experiências vividas em um ambiente adequado, que estimule sua capacidade de aprendizado e experimentação.

Método Montessori
[Método Montessori – Bundesarchiv, Bild 102-07921 / CC-BY-SA 3,0 [CC BY-SA 3,0 de], via Wikimedia Commons]

Montessori concluiu, desta forma, que as energias mentais da criança lhe capacitam a construir e consolidar, sozinha, sem nenhum dos habituais subsídios educativos, todas as características da personalidade humana (MONTESSORI, M. Mente Absorvente, p. 9).

À Educação, então, caberia a tarefa de favorecer, no seu sentido mais completo, o desenvolvimento do potencial criativo, da iniciativa, da independência, da disciplina interna e da confiança em si mesmo (Organização Montessori do Brasil).

Ao incentivar o desenvolvimento do potencial criativo da criança, elaborando e aperfeiçoando técnicas de aprendizagem para inter-relacionar e harmonizar atividade, liberdade e individualidade, Montessori criou um método que viria a chacoalhar os rumos da educação tradicional.

De acordo com sua criadora, o ponto mais importante do método é, não tanto seu material ou sua prática, mas a possibilidade criada pela utilização dele de se libertar a verdadeira natureza do indivíduo, para que esta possa ser observada, compreendida, e para que a educação se desenvolva com base na evolução da criança, e não o contrário (Lar Montessori).

Menos é mais

Por suas características de incentivo à autonomia, liberdade e respeito ao desenvolvimento natural das habilidades físicas, sociais e psicológicas da criança, o método traduz, na minha opinião, a minha filosofia de vida na sua essência.

Menos estímulos. Menos coisas. Menos correria. Menos dependência.

Mais atividades. Mais autonomia. Mais concentração. Mais responsabilidade.

Ao considerar as crianças um grupo social de enormes dimensões e uma verdadeira potência no mundo, Montessori por onde passou, deixou sua certeza de que era na criança que residia a esperança da construção de um mundo melhor (Organização Montessori do Brasil).

Ao estimular o desenvolvimento máximo das potencialidades das crianças, apropriando-se da filosofia Montessori, o ambiente familiar pode formar adultos mais bem preparados, que venham a deixar uma marca positiva no mundo (MINATEL, I. O que o Método Montessori pode trazer para a sua família).

E o que realmente me importa na vida? Qual é o legado que gostaria de deixar?

Estava decidido: minha filha iria, desde cedo, absorver o melhor que o mundo pode lhe oferecer e oferecer ao mundo o melhor que ela pudesse dar.

Viagens baratas e descomplicadas com criança

A gravidez não foi fácil. Fato!

Foram muitos dias de enjôo, muita sonolência, muito cansaço.

Me perguntei por diversas vezes por que as pessoas romantizam tanto esse período. Me senti uma pessoa horrível, completamente fora do padrão.

Para minha sorte, parir foi um momento relativamente tranquilo. Depois de 5 horas de trabalho de parto, eu finalmente peguei a minha pequena nos braços.

O começo dessa nova jornada foi um tanto quanto estressante. Além de todas as coisas, já conhecidas e estudadas que envolvem o pós-parto, eu ainda tive que lidar com os “blocos” da zika, da febre amarela e da greve da Polícia Militar.

Ficar em casa full time tornou o puerpério um momento ainda mais turbulento.

Uma viagem seria a solução, tanto para burlar o stress do dia a dia do papai, envolto entre os pensamentos da paternidade e as tarefas da empresa. Quanto para aproveitar a licença maternidade e dar uma relaxada na mamãe.

Estava decidido!

E aí, viajar com criança dá um trabalhão, não é verdade?

Bom, é o que muitos contam. Mas, como eu disse antes, os desafios estão aí para serem superados, rsrsrs.

Eu já tinha o caminho das pedras para viagens baratas e descomplicadas para adultos.

Agora, só precisaria incluir o item “criança” nesse pacote.

E a filosofia montessoriana estava aí para me inspirar!

Um bebê não consumiria nada além do que já consome em casa (tirando alguns poucos hotéis que cobram um extra e até 10% da passagem de avião).

Para descomplicar, menos é mais!

Menos coisas, menos correria. Mais atividades, mais autonomia, mais concentração.

O desafio

A meta era ousada, mas bastava!

Com o planejamento da viagem em mãos (não deixe de conferir o nosso Manual prático com 28 dicas essenciais sobre como planejar a primeira viagem com bebê) rumamos para o Chile.

E está sendo a maior e melhor aventura de nossas vidas (logo logo disponibilizaremos um artigo com todos os detalhes da nossa viagem).

Emocionante! Surpreendente! Lindo!

Claro que tivemos que superar contratempos, mas eles estão no nosso dia a dia em casa também.

Afinal, feliz ou infelizmente, os bebês não chegam ao mundo com manual de instruções.

Um novo significado para o Mariana Por Aí

Como não podia deixar de ser, nossas vidas passaram a ter um novo e grandioso significado.

Os nossos projetos, sem a pequena, deixaram de fazer sentido. Eles deveriam incorporá-la para continuarem existindo.

Foi assim que chegamos ao novo Mariana Por Aí, um espaço onde iremos dividir contigo o caminho da nossa Grande Guerreira rumo a novas e maravilhosas descobertas.

Compartilhando dicas de viagens baratas e descomplicadas, temos  como missão incentivar outros papais e mamães a burlarem o medo de viajar com os seus pequenos. Para que possamos criar uma rede de grandes seres humanos, conectados com o mundo e com a humanidade. E agir em prol de um mundo melhor!

Criar um serumaninho completo e pleno, pronto para encher esse mundão com as mais lindas atitudes e brilho nos olhos, é o que nos motiva diariamente.

Essa é a nossa jornada. Vamos juntos?

PSIU, MEGA IMPORTANTE: ajuda a espalhar esse artigo, seu amigo agradece!

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Mariana Menezes

Arquiteta por vocação, escritora por diversão, viajante apaixonada. Realiza viagens memoráveis com o melhor custo benefício há 11 anos. Quer te ajudar a fazer as viagens dos seus sonhos caberem no seu bolso, sem perrengue. Agora, com um ingrediente especial: nossa bebê!